TEM COMO EVITAR O SOFRIMENTO?

Published in 3 de maio de 2022 by

           Qualquer pessoa desperta sabe que a vida é como trocar o pneu do carro em movimento. Difícil. A felicidade não ocupa todos os contextos e espaços. Muito menos vivemos com uma seleção específica das emoções que mais nos agradam sentir. Sentimos de tudo. Faz parte.

            O psicólogo americano Steven Hayes, em um de seus estudos, afirma que muitas pessoas possuem um equívoco quanto ao conceito de felicidade, deduzindo que esta, seria a ausência completa de tristeza. Além disso, aponta que na tentativa de evitarmos a dor, criamos uma série de medos e fobias que aumentam ainda mais o sofrimento. É como se atualmente, os ideais sustentassem uma espécie de “ditadura” da felicidade.

            Na tentativa intensa e constante de evitar a dor, as pessoas passam a não sentir nada e acabam imersas em um estado de vazio profundo. Ser feliz é algo a ser considerado para longo prazo, vivendo uma vida de acordo com a descoberta dos próprios valores e aceitando que momentos difíceis também aparecem com alguma função e têm uma importância.

            Na cozinha não existe um único sabor de tempero. Precisamos do azedo, amargo, doce, salgado para incentivar o paladar. Na vida não é muito diferente. Precisamos aceitar a multiplicidade de emoções e compreender: a serviço de que elas aparecem? O que dá sabor para a vida é justamente a característica e representação específica que cada emoção traz. Todas têm a sua importância e como diria Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérola.

LOUCURA OU SANIDADE?

Published in 3 de maio de 2022 by

            Em uma de suas obras, o autor e psicoterapeuta britânico Adam Phillips traz uma discussão importante, contrapondo a ideia de loucura e sanidade. O que é ser louco? Existe sanidade? Analisando a retrospecção histórica do tema, é surpreendente a falta de encantamento pela ideia de sanidade, como existe com a da loucura. Não considerá-la, nos leva ao desalinhamento com o que queremos e possibilidades que desejamos para nós mesmos.

            Levando em consideração o movimento antipsiquiátrico no final dos anos 1960, enquanto a sanidade estava sendo questionada ao ponto de fundamentar-se na imagem de como as pessoas deveriam ser ou agir, não correspondiam com a complexidade de suas vidas. Ao passo que a loucura seria o retorno às complexidades e emergências da vida que indivíduos considerados sãos queriam excluir.

            Valendo-se desta reflexão, questiono ao leitor deste texto: quando falo sobre sanidade, o que lhe vem a mente? E quando falo sobre loucura? A realidade e considerando a crítica proposta por Phillips, a ideia de sanidade está muito relacionada à vidas com sucesso social, profissional, conformidade e submissão. Já a loucura, aos transtornos mentais e às pessoas que vivem sem considerar o padrão considerado mais “adequado” para interagir com o ambiente.

            Viver ignorando a complexidade da vida na tentativa de se manter são está deixando as pessoas acometidas. Viver pela imagem que passa, ao invés de viver pelo conteúdo que alicerça os seres humanos é o que gradativamente está transformando a humanidade cada vez menos humana.

            Deveríamos esquecer o questionamento de ser ou não normal e começar a pensar em quais são os propósitos de nossos comportamentos. Por exemplo, ao invés de perguntar se ser tímido é normal, comece a perguntar qual o propósito da timidez para aquele indivíduo. No final das contas, loucura mesmo, é desconsiderar que SER humano é profundo, intenso, complexo e ainda,  deslumbrante.

TEMPO PRA SER CRIANÇA

Published in 3 de maio de 2022 by

            A rotina das crianças está progressivamente, sendo preenchida por incontáveis atividades extracurriculares, o que de maneira regular, tem potencializado sintomas ansiosos, como dificuldade para dormir, taquicardia, pensamento acelerado, sudorese e outros.

            A grande questão é que embora seja de extrema importância manter uma rotina e desempenhar atividades que contribuam com o desenvolvimento e socialização infantil, a partir do momento que extrapola o tempo ou intensidade necessários, passa a ser prejudicial.

            Super estimular as crianças, privatiza vivencias fundamentais da infância que também contribuem com o desenvolvimento. Não sobra tempo para o tédio ou mesmo para a brincadeira, ou melhor, tempo para ser criança.

            As inúmeras atividades podem contribuir significativamente com o esgotamento cerebral e desenvolvimento saudável ao gerar sobrecarga e estresse para o indivíduo.

            A brincadeira é importante, ao ponto que motiva o processo de construção com o elemento da imaginação, não só auxiliando o desenvolvimento cognitivo como também, removendo barreiras para tal desenvolvimento (medo, estresse e ansiedade).

            Em termos fisiológicos, o cérebro da criança enquanto brinca, produz serotonina (reduzindo a ansiedade e regulando estados de ânimo), Dopamina (ativando o sistema de recompensa, motivação e prazer), endorfina (reduzindo a tensão neuronal, possibilitando a sensação de calma, bem estar e felicidade), e por fim, acetilcolina (favorecendo os estados de atenção, memória e aprendizado).

            Isto posto, é imprescindível que a criança tenha tempo para viver o que é indicado para a sua própria fase de vida: Brincar. E como diria Mario Quintana –  “As crianças não brincam de brincar, elas brincam de verdade”. 

A VIDA NA PALMA DA MÃO

Published in 3 de maio de 2022 by

            Costumo brincar que se a vida tivesse um controle remoto para as pessoas fazerem dela o que bem entendem, seria muito chato e monótono. Nesta idealização de que minimamente conseguimos ter controle das situações, deixamos de prestar atenção aos benefícios da espontaneidade: surpreender e ser surpreendido.

            Pense: de tudo que viveu até aqui, quantas coisas você controlou? Quantas coisas não controlou? Quantas coisas foram boas justamente por não ter tido controle algum?

            A incessante busca por ter certeza das coisas que acontecem e vão acontecer, como tentativa de sentir segurança é justamente o que alimenta a insegurança, e ainda, a ilusão de que um dia que sabe, a vida vai caber na palma da mão.

            Vou escrever algo que talvez você não goste de ler (se você for uma das pessoas que quer ter certeza): você não controla nada. A vida seria muito pequena e com possibilidades muito limitadas se coubesse na palma da mão. Que bom que ela é maior e que é propriamente a espontaneidade que traz respiro e múltiplas possiblidades de viver. Lembrando: viver é diferente de só existir.

ELEVADOR OU ESCADA?

Published in 3 de maio de 2022 by

Muitas vezes, os feitos parecem só ser legítimos quando atribuído um peso ao processo da conquista. Não basta chegar ao resultado desejado, se não for suado, não valeu. Será?

            Se você tem a opção de subir de elevador, por quê chegar de escada? É porquê é mais difícil? Colocar peso ou dificuldade nem sempre é atribuir valor. O valor está no resultado que produzimos e não necessariamente no sofrimento ostentado ao longo do processo.

            Para conquistar o que deseja, pode ser suado sim, mas a dificuldade não garante a validade do troféu.

            Você também pode usar o elevador. Não precisa ir de escada só para contar ao mundo que seu processo foi mais difícil e por isso tem mais relevância. Pode ser mais simples e ter um valor imenso só por ter chegado lá.